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Saúde depois dos 60

Muitos remédios depois dos 60: quando é hora de revisar

Por Dr. Rafael Gusmão ·

Depois dos 60, é comum a lista de remédios crescer: um para a pressão, outro para o colesterol, um para dormir, outro para o estômago, cada um receitado por um médico diferente. Quando a pessoa usa cinco ou mais medicamentos, aumentam os riscos de quedas, confusão, interações e internações. Nem todo remédio precisa sair, e muitos são essenciais. O caminho é uma revisão periódica, feita com calma, que olhe a lista inteira e a pessoa por trás dela.

Por que os remédios pesam mais depois dos 60?

Com a idade, o corpo muda a forma de lidar com os medicamentos:

  • rins e fígado eliminam os remédios mais devagar, e o efeito dura mais;
  • há menos água e mais gordura no corpo, o que muda a concentração de alguns remédios;
  • o cérebro fica mais sensível a calmantes, remédios para dormir e alguns antialérgicos;
  • mais doenças ao mesmo tempo significam mais chances de interação entre os remédios.

Uma dose que era adequada aos 50 pode ser alta demais aos 75.

Como a lista cresce sem ninguém perceber?

  • cada especialista trata a sua parte, e ninguém revisa o conjunto;
  • um remédio causa um efeito colateral, e o efeito é tratado com outro remédio, como se fosse uma doença nova. É a chamada cascata de prescrição;
  • remédios que eram para um período curto continuam por anos;
  • entram suplementos, chás e remédios sem receita, que também interagem.

Quais sinais pedem uma revisão?

  • quedas, tontura ao levantar ou desequilíbrio;
  • confusão, esquecimento ou sonolência que apareceram há pouco tempo;
  • intestino preso, boca seca ou dificuldade para urinar;
  • cansaço e falta de apetite sem explicação;
  • dificuldade para lembrar o que tomar e em que horário;
  • remédios que ninguém sabe mais para que servem.

Muitas vezes, o que parece "coisa da idade" é efeito de remédio.

Quais remédios merecem mais atenção?

Listas internacionais, como os Critérios de Beers, apontam medicamentos que costumam trazer mais risco do que benefício em pessoas mais velhas. Entre eles:

  • calmantes e remédios para dormir, pelo risco de quedas e confusão;
  • alguns antialérgicos mais antigos e remédios para bexiga, que afetam a memória;
  • anti-inflamatórios de uso contínuo, que pesam nos rins, no estômago e na pressão;
  • remédios para o estômago usados por anos sem reavaliação;
  • combinações que baixam demais a pressão ou a glicose, e causam tontura e quedas.

Estar na lista não quer dizer que o remédio é proibido. Quer dizer que o uso precisa de um bom motivo e acompanhamento.

O que é desprescrição?

É a retirada ou redução planejada de remédios que não trazem mais benefício, ou cujo risco passou a ser maior que o ganho. Não é "cortar remédio": é ajustar a lista ao momento de vida da pessoa, com prioridades claras.

Ela é feita aos poucos, um remédio de cada vez, observando como a pessoa reage. Alguns medicamentos, como calmantes e alguns remédios para pressão e humor, precisam ser reduzidos gradualmente.

O que não fazer

  • parar remédios por conta própria, mesmo os que parecem desnecessários;
  • tomar remédio de outra pessoa ou repetir receitas antigas;
  • começar suplementos sem contar ao médico;
  • esconder que não está tomando algum remédio: essa informação muda a conduta.

Como se preparar para a revisão?

Leve à consulta a "sacola de remédios": todas as caixas que estão em casa, incluindo:

  • remédios com e sem receita;
  • vitaminas, suplementos, chás e fitoterápicos;
  • colírios, pomadas e bombinhas;
  • as receitas dos outros médicos.

Vale também anotar como e quando cada um é tomado na prática, que nem sempre é como está na receita.

Quando procurar o médico?

  • se você ou alguém da família toma cinco remédios ou mais;
  • se houve queda, confusão ou piora recente sem explicação;
  • se a pessoa é acompanhada por vários especialistas e ninguém olha o conjunto;
  • se a última revisão da lista foi há mais de um ano.

Na consulta, revisamos cada remédio, por que foi receitado, se ainda faz sentido e o que pode ser simplificado, sempre em conversa com os outros médicos que acompanham a pessoa. Saiba mais sobre o cuidado da saúde depois dos 60.

Referências

  • Critérios de Beers da American Geriatrics Society sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, atualização de 2023, Journal of the American Geriatrics Society. Nível de evidência: diretriz de sociedade médica.
  • Critérios STOPP/START para revisão da prescrição em pessoas idosas, versão 3, European Geriatric Medicine, 2023. Nível de evidência: consenso de especialistas baseado em revisão da literatura.
  • Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, Geriatrics, Gerontology and Aging, 2016. Nível de evidência: consenso de especialistas.
  • Ensaio clínico randomizado D-PRESCRIBE, sobre orientação feita por farmacêuticos a idosos e aos seus médicos para retirar medicamentos de risco, JAMA, 2018. Nível de evidência: alto (ensaio clínico randomizado).

Conteúdo informativo, que não substitui avaliação médica. Dr. Rafael Domingos Gusmão · CRM-SP 158100 · RQE MFC 96311 · RQE Acupuntura 96310.