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Sono e energia

Insônia: por que o remédio para dormir não resolve

Por Dr. Rafael Gusmão ·

O remédio para dormir pode ajudar por alguns dias, mas não trata a causa da insônia e, com o uso prolongado, perde efeito e traz riscos como dependência, quedas e piora da memória. Pelas diretrizes internacionais, o tratamento de primeira escolha para a insônia crônica não é um remédio, e sim uma abordagem que reorganiza o sono e os hábitos: a terapia cognitivo-comportamental para insônia. O primeiro passo é entender por que o sono não vem.

Quando a insônia vira um problema?

Quase todo mundo tem noites ruins em fases de estresse. A insônia passa a ser um problema de saúde quando:

  • a dificuldade para dormir, para manter o sono ou o despertar cedo demais acontece três ou mais noites por semana;
  • dura mais de três meses;
  • atrapalha o dia, com cansaço, irritação, dificuldade de concentração ou sonolência.

O que costuma estar por trás?

A insônia raramente tem uma causa só. As mais comuns são:

  • ansiedade, estresse e preocupações que aparecem na hora de deitar;
  • horários irregulares, trabalho em turnos e telas até tarde, que desregulam o relógio biológico;
  • cafeína à tarde e à noite, e álcool, que faz dormir mais rápido, mas deixa o sono leve e picado;
  • dor, refluxo, vontade de urinar à noite e calorões da menopausa;
  • apneia do sono, quando há ronco alto e pausas na respiração;
  • remédios que atrapalham o sono;
  • depressão, que muitas vezes começa pelo sono.

Tratar essas causas costuma fazer mais diferença do que qualquer comprimido.

Por que o remédio para dormir não resolve?

Os remédios mais usados, como os calmantes da família dos benzodiazepínicos e as chamadas "drogas Z", como o zolpidem, fazem dormir mais rápido nas primeiras semanas. Com o tempo, porém:

  • o efeito diminui, e a dose tende a subir;
  • aparece a dependência, e parar de repente pode piorar a insônia e causar ansiedade;
  • aumentam o risco de quedas e fraturas, principalmente depois dos 60 anos;
  • podem causar sonolência no dia seguinte, afetar a memória e a atenção ao dirigir;
  • o zolpidem pode causar episódios de sonambulismo e comportamentos durante o sono dos quais a pessoa não se lembra.

Uma revisão de estudos com idosos mostrou que o ganho de sono com esses remédios é pequeno, enquanto o risco de efeitos adversos, como quedas e confusão, é bem maior.

Eles podem ter lugar em situações específicas e por pouco tempo, sempre com acompanhamento. Nunca devem ser suspensos de repente depois de uso prolongado: a retirada é gradual e orientada.

E a melatonina?

A melatonina tem efeito modesto na insônia comum. Ela ajuda mais quando o problema é o horário do sono, como em quem só consegue dormir muito tarde ou no jet lag. É mais segura que os calmantes, mas também não substitui o cuidado com a causa.

O que é a terapia cognitivo-comportamental para insônia?

É o tratamento recomendado como primeira escolha por sociedades médicas. Em poucas semanas, com orientação, ela trabalha:

  • horário fixo para acordar, todos os dias, inclusive fins de semana;
  • cama só para dormir: se o sono não vier em cerca de 20 minutos, levantar e voltar só com sono;
  • ajuste do tempo na cama ao tempo real de sono, para o sono ficar mais firme;
  • pensamentos que atrapalham, como a preocupação com "não vou conseguir dormir";
  • rotina e ambiente: luz natural de manhã, menos telas à noite, quarto escuro e fresco.

Os resultados demoram um pouco mais para aparecer do que com um comprimido, mas se mantêm depois do tratamento.

O que você já pode fazer hoje

  • acordar no mesmo horário todos os dias;
  • tomar café só até o começo da tarde;
  • evitar álcool como "remédio para dormir";
  • diminuir as telas na última hora antes de deitar;
  • não ficar na cama rolando por muito tempo.

O que não fazer

  • tomar remédio para dormir emprestado ou sem avaliação;
  • parar de repente um calmante usado há meses;
  • usar álcool, antialérgicos ou "chás calmantes" em doses altas para apagar;
  • compensar a noite ruim dormindo até tarde ou com cochilos longos.

Quando procurar o médico?

  • se a insônia dura mais de três meses ou atrapalha o seu dia;
  • se você ronca alto, tem pausas na respiração ou sente sono ao dirigir;
  • se já usa remédio para dormir há muito tempo e quer diminuir ou parar com segurança;
  • se a insônia veio junto com tristeza, ansiedade ou mudança de humor.

Na consulta, investigamos a causa e montamos um plano, com ou sem medicamento, conforme o seu caso. Saiba mais sobre a avaliação de sono, ritmo biológico e energia.

Referências

  • Diretriz do American College of Physicians para o tratamento da insônia crônica em adultos, Annals of Internal Medicine, 2016. Nível de evidência: diretriz de sociedade médica.
  • Revisão sistemática e metanálise sobre terapia cognitivo-comportamental para insônia crônica, Annals of Internal Medicine, 2015. Nível de evidência: alto (metanálise de ensaios clínicos).
  • Diretriz da American Academy of Sleep Medicine para o tratamento com medicamentos da insônia crônica, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2017. Nível de evidência: diretriz de sociedade médica.
  • Metanálise sobre riscos e benefícios dos remédios para dormir em idosos, BMJ, 2005. Nível de evidência: alto (metanálise de ensaios clínicos).

Conteúdo informativo, que não substitui avaliação médica. Dr. Rafael Domingos Gusmão · CRM-SP 158100 · RQE MFC 96311 · RQE Acupuntura 96310.