← Todos os artigos

Doenças crônicas

Hipotireoidismo: tomo o remédio e continuo cansado. E agora?

Por Dr. Rafael Gusmão ·

Continuar cansado mesmo tomando o remédio para a tireoide é uma queixa muito comum. Às vezes o remédio não está sendo bem absorvido ou a dose precisa de ajuste. Em muitos casos, porém, o TSH já está normal e o cansaço vem de outra causa, que continua sem tratamento. O caminho é conferir as duas coisas: se a tireoide está mesmo controlada e o que mais pode estar drenando a sua energia.

O remédio está sendo bem absorvido?

A levotiroxina, o remédio mais usado no hipotireoidismo, é sensível ao jeito de tomar. Pequenos detalhes mudam muito o efeito:

  • tomar em jejum, com água, de 30 a 60 minutos antes do café da manhã, todos os dias no mesmo horário;
  • evitar café, leite, soja e suco junto com o comprimido;
  • separar por algumas horas de suplementos de cálcio e de ferro, e de alguns remédios para o estômago e para o colesterol;
  • não trocar de marca sem avisar o médico, porque a absorção pode mudar;
  • não esquecer doses: tomar o comprimido "quando lembra" deixa o nível instável.

Se algo disso mudou, o exame pode mostrar a tireoide fora da meta mesmo com a dose "certa".

A dose está ajustada?

O exame que guia a dose é principalmente o TSH. Alguns pontos importantes:

  • depois de uma mudança de dose, o TSH leva de 6 a 8 semanas para refletir o ajuste. Refazer o exame antes disso pode enganar;
  • a necessidade de hormônio muda com o tempo: com o peso, a idade, a gestação e outros remédios;
  • mais hormônio não é melhor. O excesso também dá sintomas, como palpitação, ansiedade e insônia, e a longo prazo pode afetar o coração e os ossos.

Por isso, a dose nunca deve ser ajustada por conta própria.

E se o TSH estiver normal?

Se o exame está na meta e o cansaço continua, a causa provavelmente não é a tireoide. As mais comuns são:

  • sono ruim, inclusive a apneia do sono, que é mais frequente em quem tem hipotireoidismo e excesso de peso;
  • falta de ferro, mesmo sem anemia, e vitamina B12 baixa;
  • ansiedade, depressão e esgotamento, que costumam aparecer como cansaço físico;
  • outros remédios que dão sonolência;
  • sedentarismo e rotina desregulada.

Quem tem tireoidite de Hashimoto, a causa mais comum de hipotireoidismo, também tem um pouco mais de chance de ter outras condições autoimunes, como a doença celíaca e a deficiência de vitamina B12. Às vezes vale investigá-las.

Vale usar T3 ou "tireoide manipulada"?

A maioria das pessoas se sente bem só com a levotiroxina, quando a dose está certa. A combinação com T3 pode ser considerada em casos selecionados, com acompanhamento, mas a evidência de benefício ainda é limitada.

Fórmulas manipuladas e "tireoide natural" têm dose menos previsível e risco de excesso de hormônio. Não são o caminho para a maioria das pessoas.

E os suplementos? O que diz a evidência

Muitos produtos prometem "ajudar a tireoide". Os estudos mostram um quadro mais modesto, e alguns suplementos podem até atrapalhar.

  • Selênio. Revisões de estudos mostram que ele reduz os anticorpos da tireoidite de Hashimoto e, em quem ainda não usa levotiroxina, pode baixar um pouco o TSH. Mas não há evidência consistente de que evite a evolução da doença ou melhore o cansaço, e as diretrizes europeia e americana não o recomendam de rotina. Pode fazer sentido quando há deficiência. O excesso faz mal: uma única castanha-do-pará pode ter o selênio de um dia inteiro, e várias por dia, somadas a um suplemento, passam do limite seguro.
  • Vitamina D. Estudos mostram redução dos anticorpos, mas sem efeito claro no funcionamento da tireoide nem nos sintomas. Vale repor quando está baixa, como para qualquer pessoa.
  • Iodo e algas (kelp). No Brasil, o sal já é iodado. Iodo em excesso pode piorar a tireoidite autoimune e desregular a tireoide. Suplementos de iodo ou de algas só devem ser usados com indicação, como em algumas situações da gestação.
  • "Suplementos para a tireoide" e glandulares. Um estudo que analisou dez desses produtos encontrou hormônio tireoidiano em nove deles, às vezes em doses altas. Isso pode causar excesso de hormônio sem que ninguém saiba de onde vem.
  • Ashwagandha. Pode aumentar os hormônios da tireoide, e há relatos de hipertireoidismo com o uso. Quem já toma levotiroxina deve evitar sem orientação.
  • Biotina, comum em fórmulas para cabelo e unhas. Ela não afeta a tireoide, mas altera o resultado dos exames: pode fazer o TSH parecer baixo e o T4 parecer alto, levando a ajustes de dose errados. Avise o médico e siga a orientação de suspendê-la alguns dias antes do exame.
  • Ferro e cálcio. Podem ser necessários, mas atrapalham a absorção da levotiroxina. O ideal é tomá-los com cerca de 4 horas de distância.
  • Dieta sem glúten. Para quem tem doença celíaca, é essencial. Para quem tem Hashimoto sem doença celíaca, os estudos são poucos e inconsistentes, e não há evidência de benefício no funcionamento da tireoide.

A regra prática: leve para a consulta tudo o que você toma, inclusive vitaminas e chás, e use suplemento apenas quando houver uma deficiência ou indicação clara.

O que levar para a consulta?

  • os últimos exames de TSH e T4 livre, com as datas;
  • a dose atual, a marca do remédio e como e quando você toma;
  • a lista de outros remédios e suplementos;
  • anotações sobre o sono e sobre quando o cansaço é pior.

Quando procurar o médico?

  • se continua cansado mesmo com o tratamento em dia;
  • se começou ou parou outro remédio, ou trocou a marca da levotiroxina;
  • se está planejando engravidar ou está grávida, porque a dose costuma precisar de ajuste logo no início;
  • se tem palpitação, tremor ou insônia depois de aumentar a dose.

Na consulta, conferimos se a tireoide está bem controlada e investigamos o que mais pode estar causando o cansaço. Saiba mais sobre o acompanhamento de diabetes, pressão, tireoide e doenças crônicas.

Referências

  • Revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos sobre selênio na tireoidite de Hashimoto, revista Thyroid, 2024. Nível de evidência: alto (metanálise de ensaios clínicos).
  • Metanálise sobre vitamina D, anticorpos e função da tireoide na tireoidite de Hashimoto, revista Medicine, 2023. Nível de evidência: moderado (metanálise de ensaios pequenos).
  • Posicionamento da American Thyroid Association sobre os riscos do excesso de iodo, revista Thyroid, 2013. Nível de evidência: posicionamento de sociedade médica.
  • Revisão sobre a interferência da biotina nos exames de tireoide, revista Thyroid, 2021. Nível de evidência: moderado (revisão de estudos laboratoriais e clínicos).

Conteúdo informativo, que não substitui avaliação médica. Dr. Rafael Domingos Gusmão · CRM-SP 158100 · RQE MFC 96311 · RQE Acupuntura 96310.