Emagrecimento
Canetas para emagrecer: quando fazem sentido e quando não
Por Dr. Rafael Gusmão ·
As chamadas "canetas para emagrecer" são medicamentos injetáveis, como a semaglutida e a tirzepatida, que reduzem a fome e ajudam a perder peso. Elas funcionam e podem ser uma ótima ferramenta para quem tem indicação. Mas não são para todo mundo, têm efeitos colaterais e, sozinhas, não resolvem o que mantém o ganho de peso. A decisão de usar deve vir depois de uma avaliação médica, e não antes.
Como elas funcionam?
Esses medicamentos imitam hormônios que o próprio intestino produz depois das refeições. Na prática, eles:
- diminuem a fome e aumentam a sensação de saciedade;
- deixam o esvaziamento do estômago mais lento;
- ajudam a controlar a glicemia.
O resultado é que a pessoa come menos sem tanto esforço. É por isso que elas ficaram tão conhecidas. Mas o efeito dura enquanto o remédio é usado.
Quem pode usar?
Pelas recomendações atuais, a indicação costuma considerar:
- obesidade, com índice de massa corporal (IMC) a partir de 30; ou
- sobrepeso, com IMC a partir de 27, junto com alguma condição ligada ao peso, como diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol alterado, gordura no fígado ou apneia do sono.
O número na balança é só o começo da conversa. Na consulta, também entram a história do peso, os tratamentos que você já tentou, os remédios que usa, a saúde mental, o sono e os seus objetivos. Duas pessoas com o mesmo peso podem ter indicações diferentes.
Quando não fazem sentido?
As canetas não são indicadas, ou pedem muito cuidado, em situações como:
- para perder "alguns quilinhos" por estética, sem indicação clínica;
- gestação, amamentação ou planos de engravidar em breve;
- histórico pessoal ou familiar de alguns tipos raros de câncer de tireoide;
- histórico de pancreatite;
- transtornos alimentares, que precisam de outro tipo de cuidado antes.
Também não fazem sentido quando a ideia é usar o remédio no lugar de cuidar do sono, da alimentação e da rotina. Nesse caso, o peso tende a voltar.
Quais são os riscos e efeitos colaterais?
Os efeitos mais comuns são náusea, enjoo, vômito, intestino preso ou diarreia, principalmente no começo e nos aumentos de dose. Costumam melhorar com o tempo e com ajustes.
Com menos frequência, podem aparecer problemas na vesícula e pancreatite. Outro ponto importante é a perda de massa muscular: quando se emagrece rápido, parte do que se perde é músculo, e não só gordura. Por isso, proteína na alimentação e exercício de força fazem parte do tratamento.
E quando parar o remédio?
Estudos mostram que boa parte do peso perdido volta quando o medicamento é interrompido, se nada mais mudou. Isso não quer dizer que o tratamento falhou. Obesidade é uma condição crônica, como a pressão alta.
Por isso, o plano precisa responder desde o início: por quanto tempo usar, como ajustar a dose e o que muda no dia a dia para sustentar o resultado.
Cuidado com o que é vendido fora da farmácia
Esses medicamentos exigem receita médica. Canetas compradas sem prescrição, versões "manipuladas" sem controle de qualidade e produtos falsificados já causaram intoxicações e internações. Nunca use sem avaliação e sem saber a procedência.
O remédio é o ponto de chegada, não o de partida
Antes de pensar em caneta, vale entender por que o peso subiu e por que ele volta. Sono ruim, fome à noite, remédios que engordam, alterações de tireoide, ansiedade e a rotina de trabalho pesam muito, e nenhuma injeção resolve isso sozinha.
Quando há indicação, o medicamento pode ajudar bastante. Ele funciona melhor como parte de um plano acompanhado, com metas possíveis e ajustes ao longo do tempo, do que como um atalho.
Quando procurar o médico?
- Se o peso afeta a sua saúde, o seu sono ou a sua disposição.
- Se você já tentou várias vezes e o peso sempre volta.
- Se está pensando em usar uma caneta e quer saber se ela é para você.
- Se já usa e tem efeitos colaterais ou dúvidas sobre como parar.
Na consulta, avaliamos se há indicação, os riscos no seu caso e como seria o acompanhamento. Saiba mais sobre o acompanhamento de emagrecimento e metabolismo.
Referências
- Ensaio clínico randomizado STEP 1, sobre semaglutida no tratamento da obesidade, New England Journal of Medicine, 2021. Nível de evidência: alto (ensaio clínico randomizado).
- Ensaio clínico randomizado SURMOUNT-1, sobre tirzepatida no tratamento da obesidade, New England Journal of Medicine, 2022. Nível de evidência: alto (ensaio clínico randomizado).
- Ensaio clínico randomizado STEP 4, sobre o reganho de peso ao suspender a semaglutida, JAMA, 2021. Nível de evidência: alto (ensaio clínico randomizado).
- Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, ABESO, 2026. Nível de evidência: diretriz de sociedade médica.
Conteúdo informativo, que não substitui avaliação médica. Dr. Rafael Domingos Gusmão · CRM-SP 158100 · RQE MFC 96311 · RQE Acupuntura 96310.